terça-feira, 6 de setembro de 2011

O NASCIMENTO DE MISSÕES

O Nascimento de Missões


CAPÍTULO I

Introdução
A história de Missões inicia, na verdade, já na promessa de Deus de resgatar o homem caído através da descendência de Eva, proferida Logo após a queda do ser humano no pecado. Mas, em termos de uma divulgação do Reino de Deus pelos cristãos, é claro que teremos que buscar as origens na Igreja Primitiva. Costuma-se dizer que missões nasce no seio da Igreja de Antioquia e de fato é, a partir da viagem missionária de Barnabé e Saulo, que o movimento missionário, propria­mente dito, inicia.

1. Antecedentes no Antigo Testamento
A tarefa missionária não é nova quando a Igreja nasce no dia de Pentecostes. Já fazia parte da chamada a Abraão e ao povo de Israel a tarefa de abençoar as nações (GN 12.1-3).
A história do povo israelita, no entanto, não contém grandes feitos na área de divulgação dos planos divinos, com raras exceções. Segundo J. Blauw, Israel foi comissionado, tanto para uma obra centrípeta - ser um ambiente de atração onde Deus pudesse ser adorado, como centrífuga - espalhar o co­nhecimento acerca de Deus para outras nações. No primeiro aspecto, o povo eleito foi um pouco mais feliz, mas no segundo, houve um fracasso quase que total.’Entretanto, a preocupação divina com a humanidade como um todo e a expansão do Reino a todos os povos existem claramente afirmadas nas páginas do Antigo Testamento. Por isso, missões é também um cumprimento das profecias (At 26.22,23).

2. Proselitismo judaico
Após o exílio na Babilónia e a volta de parte do povo de Judá à Palestina, o Judaísmo começa a se estruturar tal como se apresenta na época do Novo Testamento. Jerusalém é, natu­ralmente, o grande centro de culto ao Senhor, mas sinagogas surgem em diferentes pontos do Império Grego, e mais tarde do Império Romano, onde havia um número suficiente de judeus. Através do proselitismo, isto é, a conversão de um gentio para a fé judaica, aceitando ser circuncidado e guardar as tradições .judaicas, houve certa expansão do Judaísmo. A busca de prosélitos levava líderes religiosos e “missionários” a per­correrem grandes extensões para converter os gentios (com­pare  Mt2Q3.15).

3. Elementos de contribuição
A época escolhida por Deus para enviar seu Filho Jesus e para implantar a Igreja na terra, não poderia ter sido mais acertada. Soberano e Senhor da história, o seu planejamento é perfeito e coincide com, até então, a melhor situação para o “lançamento” do desafio missionário.
Podemos destacar três elementos decisivos, cada um repre­sentando uma cultura:
3.1. A Diáspora - o elemento judaico. Nem todos os judeus voltaram à Palestina após a libertação do exílio babilô­nico. Muitos ficaram e outros se espalharam pelas ter­ras ao redor do Mar Mediterrâneo. Onde se fixaram, estabeleceram sinagogas e tentaram guardar as tradi­ções de seu povo. Nas sinagogas se reuniam, tanto judeus, como prosélitos e os “tementes a Deus”. Este último era um grupo formado por gentios que não queriam assumir completamente os costumes judaicos, mas estavam interessados na fé num único Deus.
As sinagogas e as colônias judaicas serviram como cen­tros de apoio aos primeiros empreendimentos missio­nários e Paulo costumava começar seu trabalho ali. Como a recepção nem sempre era a melhor, principal­mente após ouvirem a mensagem do apóstolo, a prega­ção era dirigida aos demais habitantes de uma cidade. Os “tementes a Deus” eram geralmente receptivos e compunham, muitas vezes, a base inicial da nova igreja.
3.2. O helenismo - o elemento grego. Devido à expansão do helenismo, ou seja, a cultura grega, por causa das vitó­rias de Alexandre, o Grande, no século IV a.C., a língua grega era falada em todo o Império Romano. A aber­tura para novas idéias também era um resultado direto da mente analítica grega. O uso de um idioma e o interesse por idéias inovadoras facilitaram a divulgação do Evangelho durante o primeiro século.
3.3. A Pax Romana - o elemento romano. O Império Ro­mano tinha na época relativa paz - chamada pax roma­na. Havia forte comércio entre as diferentes partes do Império e comunicações bem estabelecidas. A unidade política dava condições de se viajar de uma região para outra, principalmente para um cidadão romano como Paulo.
Um outro aspecto relacionado, tanto com a cultura romana, como a grega, era a fraqueza espiritual das religiões pagãs que dominavam estas culturas e o declí­nio moral resultante. O evangelho encontrou um povo sedento e cansado de falsidade, ilusão e imoralidade.



4. As ordens missionárias de Jesus
Naturalmente, o próprio Mestre Jesus Cristo faz parte da história de Missões. Afinal, ele foi o maior de todos os missio­nários, enviado por seu Pai para resgatar a humanidade. Sua tarefa, no entanto, era mais restrita ao povo de Israel, manten­do-se dentro dos limites da Palestina. Encontrou pessoas tam­bém de outras culturas e mostrou aos discípulos que, por exemplo, os samaritanos também necessitavam das boas novas.
A estratégia de Jesus consistia tanto na pregação, como na ação. Atendeu a necessidade do ser humano em todos os aspectos, deixando um importante exemplo a ser seguido por seus discípulos. Nas ordens missionárias de Jesus encontramos uma visão ampla da tarefa. Deveria:
4.1. Alcançar até os confins da terra - At 1.8
4.2. Incluir todos os povos - Mc 16.15
4.3. Fazer discípulos - MT 28.19
4.4. Seguir o modelo dado pelo Mestre - JO 20.21
4.5. Contar com a presença de Jesus - MT 28.20
4.6. Demonstrar as características do Reino - Mc 16.17,18
4.7. Resultar na salvação dos homens - Mc 16.16
4.8. Ser cumprida antes do fim dos tempos - MT 24.14



5. Os apóstolos missionários
As ordens missionárias de Jesus são suficientemente claras, mas parece que os discípulos e a Igreja em Jerusalém tiveram certa dificuldade em obedecê-las no início. Com a ajuda do Espírito Santo e a contribuição das perseguições, a Igreja foi obrigada a se espalhar.
Segundo a tradição cristã, com base principalmente no historiador Eusébio (cerca de 260 a 340), os apóstolos funda­ram igrejas em:
5.1. João - na Ásia
5.2. Pedro - em Ponto, Galácia, Bitínia e Capadócia
5.3. André - na Cítia.
5.4. Mateus - em outras nações após ter escrito o evangelho
5.5. Bartolomeu - na Índia
5.6. Tomé - entre os partos (Irá, Iraque e Paquistão), certa­mente também chegou à Índia.
5.7. Marcos - no Egito, fundando Igreja em Alexandria.
5.8. Simão, o zelote - na Pérsia
5.9. Tiago, o Grande - na Espanha
5.10. Tiago, o Justo - na Arábia
5.11.Filipe - na Frígia.




Estes dados não podem ser comprovados inteiramente, mas nos dão uma boa idéia de como a Igreja se espalha no primeiro século, chegando aos mais remotos rincões do Império e até além.



6. A iniciativa missionária do Espírito de Deus.
As viagens missionárias dos apóstolos como vimos, se de­ram depois que o apóstolo Paulo já tinha iniciado sua carreira de pregador. Pelo menos na sua maioria, os apóstolos se man­tinham em Jerusalém (At 8.1).
É na Igreja de Antioquia que vamos encontrar o nascimento de missões numa cooperação entre duas estruturas paralelas: a fixa = igreja local e a móvel = equipe missionária. Quem dá origem ao movimento missionário é o próprio Deus através do seu Santo Espírito ativo na Igreja de Antioquia (At 13.1-3). O Espírito dirige também os planos missionários (At 16.6,9) e dá ousadia na pregação (At 13.46-52).



7. Uma igreja preparada
Outro aspecto do início da história de missões, é que o berço do movimento missionário se deu numa igreja preparada para a incumbência transcultural. Algumas características da Igreja em Antioquia são:
7.1. Surgida devido a perseguição aos crentes em Jerusalém (At 11.19,20).
7.2. Composta por nacionalidades diferentes - com lideran­ça pluricultural (At 13.1).
7.3. Generosidade (At 11.27-30).
7.4. De oração (At 13.2) - sensível à voz de Deus.
7.5. Envio dos melhores líderes, segundo a expressa vonta­de de Deus.

8. Situação no fim do primeiro século

É impressionante como o Evangelho alcançou o mundo conhecido no primeiro século da era cristã. Já em 80-85 d.C. havia em torno de 300.000 cristãos! As perseguições por parte dos imperadores romanos tentaram reprimir o movimento cristão, mas a Igreja continuou avançando e no ano de 300 já contava com 8 milhões de adeptos.

A conquista do Império Romano


CAPÍTULO II

Introdução
No fim do 1o século, a Igreja se encontrava num franco progresso, alcançando os diversos pontos do Império Romano - o período de 100 a 500 d.C. esta expansão continuou, pelo menos enquanto a Igreja era livre e não se comprometera ainda com o poder terreno. Estes 400 anos englobam extremos, como forte expansão e o retrocesso, a perseguição por parte dos imperadores romanos e o casamento” entre a igreja e o império.

1. Formas de expansão do evangelho no Império Romano
Várias formas de propagação do Evangelho contribuíram para a expansão nos dois primeiros séculos da era cristã:
1.1. A pregação e o ensino de evangelistas;
1.2. O testemunho pessoal dos crentes;
1.3. Tos de bondade e caridade;
1.4. A fé mostrada na perseguição e morte; e
1.5. O raciocínio intelectual dos primeiros apologistas.
Havia um forte entusiasmo por parte dos primeiros cristãos em levar a mensagem de Cristo a outros e em relatar sua experiência pessoal.
Os imperadores romanos podiam impedir reuniões em massa, mas o testemunho pessoal dado no dia - a - dia era impos­sível de controlar.

2. O Relacionamento entre a Igreja e o Império
Com o aumento do número de adeptos da fé cristã, a Igreja começou a ser incômoda para os governantes do Império. Perseguições foram as armas imperiais para liquidar com os cristãos. Paulo e Pedro sentiram o poder da perseguição já nos anos 64-67 quando foram martirizados. No ano de 81, sob o domínio de Dominicano, as perseguições se agravaram e perdu­raram por mais de dois séculos.
Imperadores como Décio, que reinou entre 249 e 251, e Diocleciano (284-305), fizeram tentativas de eliminar a Igreja de uma vez por todas. Mas, no meio de todas as perseguições, a Igreja cresceu e chegou, como citamos no capítulo anterior, a 8 milhões de adeptos em torno do ano 300.
Constantino ascendeu ao poder em 306 e, inicialmente, continuou a perseguição imposta por seus antecessores. Con­verteu-se, no entanto, ao Cristianismo e em 311 decretou a lei da tolerância e dois anos mais tarde a lei da igualdade, dando liberdade de religião no Império.
Foi, entretanto, o Imperador Teodósio, o Grande, que em 380 impôs uma lei que elevava a Igreja de Cristo ã religião oficial do Estado e que proibia os demais cultos religiosos dentro do Império.
Os interesses se misturaram e o imperador e o bispo prin­cipal, o metropolita, dividiam o poder, tanto na Igreja, como no Estado.


3. As Lutas contra as heresias
Numa Igreja que se expandia fortemente e que estava ainda em fase de estruturação, líderes de diversos tipos foram sur­gindo. As idéias sobre o Cânon Bíblico, especialmente o do Novo Testamento, ou sobre aspectos de liturgia, administração da Igreja, hierarquia eclesiástica, etc, divergiam. Centros teo­lógicos se estabeleceram em alguns pontos do Império e, geralmente, tinham sua linha a defender. As divergências entre o lado ocidental e o lado oriental se agravaram e levaram a uma divisão.
Para tentar manter um padrão apostólico quanto aos ensi­namentos básicos da Igreja, refutando hereges como Ano (faleceu cerca de 335) e antes dele Marcião (faleceu cerca de 160), concílios e sínodos eram organizados. Dois importantes concílios foram: Nicéia em 325 e Constantinopla em 381.

4. Personagens de destaque
Poderíamos mencionar muitas pessoas importantes nestes primeiros séculos do Cristianismo. Por exemplo, os “pais da Igreja” que defenderam a fé contra as heresias e se empenha­ram em conduz ir a Igreja conforme deixada pelos apóstolos. Vamos, todavia, destacar um personagem de cada século, que com sua coragem e testemunho, contribuiu para a obra missio­nária.
4.1. Policarpo (século II)
Bispo em Esmirna, discípulo de João, teve um ministé­rio de cerca de 50 anos como bispo. Foi martirizado, queimado numa estaca no ano de 156.
4.2. Perpétua (século III)
Juntou-se a um grupo de crentes em Cartago, no norte da África, que funcionava apesar da proibição do impe­rador. Presa, assim como os demais do grupo, foi con­denada à morte e após ter sofrido tortura psicológica e física, foi decapitada.
4.3. Ulfilas (311 a 383)
Um dos maiores missionários da Igreja Primitiva. Tra­balhou entre os godos (atual Romênia) durante 40 anos. Traduziu a Bíblia para a língua nativa dos godos tendo que, primeiramente, montar um alfabeto. Era ariano e deixou de incluir alguns livros do Antigo Testamento mas deixou um importante testemunho de coragem e persistência.
4.4. Patrício (cerca de 389 a 474)
Nascido na Escócia, filho de um sacerdote celta. Foi feito escravo quando tinha 16 anos de idade e levado à Irlanda. Escapou após 6 anos e passou 10 anos com sua família, sendo novamente aprisionado e levado à Fran­ça. Recuperou sua liberdade e voltou aos seus, mas desejou Fogo voltar aos “pagãos” para evangelizá-los. Preparou-se na França para depois viajar de novo à Irlanda. Ficou conhecido como o apóstolo da Irlanda onde fundou, calcula-se, 200 igrejas com mais de cem mil convertidos.

4.5. Columba (521 a 597)
Nascido na Irlanda, foi um dos mais famosos missioná­rios celtas. Não deve ser confundido com outro Colum­ba, mais frequentemente chamado Columbano, que viveu alguns anos mais tarde.
Columba estabeleceu um centro celta na ilha de lona, no litoral da Escócia, do qual fez sua base de trabalho. Além da vida monástica praticada em seu mosteiro com alto grau de piedade, ele primava pelo preparo de evangelistas que eram enviados para a Escócia a fim de pregarem o evangelho, construírem igrejas e estabe­lecerem novos mosteiros. O trabalho se estendeu por todo o país e posteriormente, também para outros paí­ses europeus.

5. O monasticismo e os celtas
O Monasticismo contribuiu fortemente para o movimento missionário, gerando grande parte dos missionários entre os séculos VI e XVIII. Surgido inicialmente no deserto do Egito com liderança leiga, ganhou adeptos em diferentes partes do Império dominado pela Igreja.
Os objetivos da vida monástica eram, principalmente, tra­balho, adoração, ascetismo, estudo, obediência e cooperativis­mo. Com o passar do tempo, deixou de ser unicamente voltado para dentro de si e ganhou um aspecto missionário. Um dos famosos reformadores do monasticismo foi Bene­dito de Núrsia (480 a 542 d.C.), conhecido como São Bento. Sua idéia era que o mosteiro deveria ter auto-suficiência eco­nômica e cria que era possível seguir o exemplo dos primeiros cristãos em Jerusalém, dividindo todas as coisas entre os mem­bros da comunidade.
O modelo adotado por São Bento foi seguido pela maioria dos mosteiros e ordens monásticas. Os celtas formaram a igreja monástica mais missionária. Sua origem estava no povo celta que no século VII a.C. vivia espalhado pela Europa. É provável que os gálatas eram de origem celta (compare as consoantes g-l-t e c-l-t). No século III da era cristã chegaram com o evangelho para a Bretanha fundando igrejas. Patrício, como vimos, vinha de uma tradição cristã celta. Características para a Igreja celta eram:
5.1. Uso do idioma nacional no trabalho missionário, tradu­zindo as Escrituras;
5.2. Zelo missionário e mobilidade no trabalho;
5.3. Piedade e austeridade;

O período sombrio


CAPÍTULO III


Introdução
O período sombrio compreende basicamente os anos de 500 a 1.000 da era cristã. O nome dado ao período se deve ao forte declínio espiritual das igrejas e a pouca iniciativa de expansão por parte da Igreja existente. O “casamento” com o governo romano trouxe prejuízos incalculáveis à Igreja. A invasão dos árabes e, consequentemente, também da fé mu­çulmana, deu ao período uma característica de derrota.



1. O declínio do Império Romano
1.1. A forma como a Igreja vinha crescendo na Idade Média era através de conquistas políticas e militares. Os reis se convertiam ao Cristianismo, principalmente, por conveniências políticas, por exemplo, Clóvis, o rei dos francos. Desta maneira, li avia conversões em massa.
1.2. O ataque de povos vizinhos enfraquecia o Império Ro­mano. Tanto os bárbaros - povos do norte da Europa, como os árabes, invadiam o Império.
1.3. O sincretismo, resultante das conversões em massa se­guindo a ordem de um rei e das invasões, trouxe à Igreja problemas sérios, causando divisões. Numa mistura de interesses políticos e religiosos havia o constante perigo de comprometer a fé cristã.
1.4. Como a Igreja e o Estado Romano estavam intimamen­te ligados, o declínio do segundo levou também ao declínio da primeira. A Igreja se dividiu, em torno do ano de 850, em ocidental e oriental e perdeu centros outrora fortes, como por exemplo, Cartago.

2. Gregório, o Grande
2.1. Destacou-se como bispo de Roma num verdadeiro in­teresse por missões.
2.2. Viveu entre 540 e 604 sendo primeiramente monge e depois bispo e papa.
2.3. Conseguiu o apoio papal para a organização da primei­ra missão oficial da Igreja, d ando prior idade às missões à Bretanha.


2.4. Em 596 enviou Agostinho para Canterbury, na Breta­nha, onde a tare a principal era converter os reis e governantes.
2.5. Gregório foi fundador da teologia romana, contra a qual Lutero mais tarde protestou.
2.6. Quanto à sua estratégia missionária, temos uma citação de Beda, historiador da época, onde Gregório teria escrito o seguinte numa carta dirigida ao abade Melito que estava a caminho da Bretanha:
“Os templos pagãos desses povos não precisam ser destruídos, apenas os ídolos neles encontrados... Se os templos forem bem construídos, será interessante desligá-los do serviço para o diabo e adaptá-los para a adoração do Deus verdadeiro... Como o povo está acostumado, quando se reúne para o sacrifício, a matar muitos bois para ofertá-los aos demônios, parece razoável mar­car uma festa popular para substituir essa celebração. O povo precisa aprender a matar o gado em honra de Deus e para o seu próprio alimento em lugar de homenagear o diabo... Se lhes concedermos essas alegrias exteriores, terão maior possibilidade de descobrirem a verdadeira alegria interior... E, sem dúvida, impossível cortar todos os abusos de uma vez desses corações endurecidos, da mesma forma que o homem que se decide a subir uma alta montanha não avança aos saltos, mas passo a passo, com regularidade”.

3. Outros personagens de destaque
3.1. Willibrord (658-739) - monge inglês que foi como mis­sionário para os frísios - hoje. Holanda e Bélgica. Marca o início da era missionária da Igreja Inglesa que durou 400 anos. Sua estratégia consistia em alcançar os não alcançados (os pagãos) e a trabalhar com a igreja já existente procurando um reavivamento.
3.2. Bonifácio (cerca de 680 a 754) - cujo nome era Wynfrith de Crediton. A missão de Bonifácio, com base na Ingla­terra, visava a evangelização do continente europeu. Ele, Bonifácio, pregava aos germanos na língua do povo. Foi agressivo desafiando os deuses, destruindo seus lugares santos, derrubando árvores santas e cons­truindo igrejas em locais sagrados. Mas ele fez conver­tidos, os educou e civilizou. Fundou mosteiros que tinham, não só escolas acadêmicas, mas também pro­gramas para ensinar ao povo a agricultura, o pastoreio e as artes domésticas. Com isso foi possível estabelecer uma sociedade, uma igreja bem fundamentada e criar bons cristãos. Numa segunda linha de instituições educacionais e de ciências domésticas, Bonifácio trouxe freiras da Inglaterra. Essa foi a primeira vez que mulheres foram formalmente e ativamente engajadas na obra missionária. O clero e os monges foram recrutados do meio do povo. Toda essa atividade foi apoiada pela igreja “nacional” da Inglaterra. Bonifácio enviava relatórios e pedidos. Ele discutia estratégia com os que tinham ficado em casa. Os bispos, os monges e as freiras enviavam por sua vez, pessoal, dinheiro e suprimentos a Bonifácio. Também envolveram a missão com ora­ções intercessórias. O trabalho missionário deste tipo deixou de existir por razões políticas. A Inglaterra foi invadida por outras nações.
3.3. Agostinho foi enviado em 596 por Gregório para a Inglaterra, juntamente com um grupo de monges. Após um ano de trabalho conseguiu ganhar o rei, Egbert de Wessex e batizar 10.000 saxões.
3.4. Anskar nascido em 801 na França era um místico, movido por visões e sonhos, cuja maior ambição era alcançar a coroa do martírio. Chamado de “apóstolo do norte por ter sido o primeiro a evangelizar na Escan­dinávia. Ele fez três viagens missionárias à Suécia, duas na década de 820 e uma em torno de 850. “Anskar é uma figura profética admirável, não pelo que conseguiu, mas em virtude da paciência e da devoção com que atraves­sou a porta difícil de abrir, trabalhando fora dos centros cristãos”.5 Anskar faleceu em 865.
3.5. Carlos Magno rei dos francos falecido em 814. Fez campanha contra os saxões ampliando os domínios da Igreja. Iniciou o Renascimento Carolíngio.

4. A Igreja Nestoriana
Certamente o grupo mais interessante da igreja oriental. Os nestorianos compreendiam a parte da igreja oriental de fala síria. O nome vem de Nestório, patriarca de Constantinopla a partir de 428.
Levaram, os missionários da Igreja Nestoriana, o evangelho por grande parte da Ásia, alcançando a China em 635. Seus métodos eram: vida monástica com celibato, escola para mis­sionários, mobilidade com profundo zelo missionário e um alto nível de suas escolas implantadas nos campos missionários.



5. A invasão muçulmana
5.1. O Islamismo teve sua origem na Arábia Saudita através do seu profeta Maomé (570-632) que fortemente in­fluenciado pelo Judaísmo e pelo Cristianismo, deu iní­cio à fé muçulmana em 610. Baseado em visões, por ele atribuídas a Má, o Deus criador, e colecionadas no Alcorão, o Islamismo surge como uma reação contra o suposto politeísmo na fé cristã.

5.2. Os fundamentos de fé do Islamismo são:
- Alá é Deus e Maomé o seu profeta.
- Deus trabalha através de espíritos mediadores (an­jos).
- O alcorão é o livro sagrado.
- Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus eram todos pro­fetas, mas Maomé é o maior deles.
- Existem ressurreição, juízo e um paraíso para os bons muçulmanos.
5.3. Um muçulmano deve observar as seguintes práticas:
1. Oração 5 vezes ao dia em direção a Meca (a cidade sagrada).
2. Dar esmolas e praticar caridade.
3. Um mês de jejum por ano - o ramadã.
4. Uma vez na vida, ao menos, fazer uma peregrinação a Meca.

5.4. O Islamismo tornou-se uma força não somente religio­sa, mas também política e militar no séc. VII. Com a data de 622 como início oficial do Islamismo (ou Islão), logo conquistou vastas áreas do Oriente Médio. Sua fase de expansão iniciada em 629 se estendeu até 839 quando tinha atingido o norte da África e o sul da Europa, chegando a dominar desde a Índia até o Atlân­tico!

A expansão na Europa


CAPÍTULO IV

Introdução
O período de 1.000 a 1.500 é marcado pela expansão da Igreja ao norte europeu e pelas lutas em torno do Mediterrâ­neo, as chamadas Cruzadas.
Notamos que a expansão da Igreja, assim como o combate aos muçulmanos, se dá muito mais em função de interesses políticos, do que por questões espirituais ou religiosas. Natu­ralmente, existem exceções que deixam algum saldo positivo do período.

1. As Cruzadas
1.1. Com a intenção de expulsar os muçulmanos do sul da Europa, região já tradicionalmente cristã, as Cruzadas foram iniciadas em 1096, prosseguindo até o ano de 1291. Mas o movimento das Cruzadas durou até 1492, quando os mouros foram definitivamente vencidos.
1.2. As principais razões para o uso da ofensiva armada dos cristãos nos países do sul europeu foram:
- Sentimento religioso - o desejo de se fazer peregrinações a Jerusalém, em poder dos muçulmanos;
- Salvação pelas obras - sendo que a participação numa cruzada era contada como uma boa obra dian­te de Deus;
- Busca de aventura - que atraiu muitos para as longas e demoradas viagens;
- Defesa contra os turcos;
- A miséria e a fome que predominavam o mundo da época trouxeram um profundo desejo de mudanças e de novas conquistas, além de um fortalecimento do sentimento religioso que levou muitos a busca­rem a realização no monasticismo e no ascetismo;
- Desejo de unir as igrejas ocidental e oriental.
1.3. Operações militares das Cruzadas
Destacamos as quatro primeiras Cruzadas armadas contra o domínio dos muçulmanos:
- A primeira Cruzada, 1096, - conquistou Jerusalém em 1098;
- A segunda Cruzada foi um fracasso, sendo derrotada em 1187;
- A terceira Cruzada, 1189, foi uma tentativa de refa­zer-se diante do fracasso anterior;
- A quarta Cruzada, 1202, saqueou Constantinopla.
1.4. Resultados das Cruzadas
- O fortalecimento da intolerância diante dos que pensavam diferente (o espírito das Cruzadas) que fortemente marcou a oposição aos “heréticos” na Europa, durante a Idade Média;
- O surgimento de ordens monásticas militares;
- Uma mudança na atitude em relação à guerra, sen­do aceitável quando em defesa da fé cristã;
- Mudanças políticas e econômicas como resultado das conquistas e das novas relações dentro do mundo mediterrâneo;
- Um crescente conflito entre as igrejas ocidental e oriental devido ao não respeito ao território de cada uma;
- O “mau testemunho na história”, cujas influências são sentidas ainda hoje no relacionamento entre cristãos e muçulmanos.

2. Personagens de destaque
2.1. Raimundo Lull (1.232 a 1.315)
Nascido em Maiorca, ilha pertencente à Espanha, filho de família abastada, católica romana. Teve uma expe­riência mística perto dos trinta anos de idade com vi­sões. Estudou árabe durante nove anos. Com mais de quarenta anos foi para o campo missionário - Tunísia. Dedicou-se a três áreas: apologética, educação e evan­gelização. Morreu, apedrejado, em Bugia (Argélia) em 1.315.
“A vida e obra de Lull são um testemunho do poder do verdadeiro Cristianismo para resistir até mesmo nos períodos mais negros da história da igreja.
2.2. Francisco de Assis (1.181 a 1.226)
Italiano, nascido em Assisi, filho de burgueses. Seu nome era Giovanni mas ficou mais conhecido na histó­ria como Francisco. Converteu-se após longo período de meditação e busca da verdade. Escolheu viver em pobreza e foi deserdado por seu pai. Sentiu a chamada missionária em 1.209 e fez três viagens missionárias: ao Marrocos em 1.212, à Espanha em 1.214 e ao Egito em 1.219, sendo a última de maior sucesso. Fundou a ordem dos Franciscanos em 1.210 - “os irmãos menores”. “A chave da vida de Francisco foi sua tenta­tiva, sem meios-termos, de imitar a Cristo através da pobreza, humildade e simplicidade absolutas. Amava a natureza como a boa obra das mãos de Deus e tinha profundo respeito às mulheres” (Bishop).

3. A Pré-Reforma
3.1. Havia no séc. XIV iniciativas de uma reforma dentro da Igreja Romana. Alguns corajosos se opuseram as tradições católicas romanas que, segundo eles, não ti­nham base nas Sagradas Escrituras.
3.2. João Wycliffe (cerca de 1.330 a 1.384).
Foi um estudioso e teólogo inglês, doutor em teologia e professor em Oxford. El e rejeitou as cerimônias e organizações não mencionadas nas Sagradas Escrituras, condenou a transubstanciação e o poder sacramental no sacerdócio, negando a eficácia da missa. Traduziu a Bíblia para o idioma do povo, considerando a leitura das Escrituras fundamental para a vida cristã.
3.3. João Hus (cerca de 1.372 a 1.415)
Nascido na Boêmia (Checo e Eslováquia), estudou teo­logia em Praga, sendo mais tarde docente na Faculdade de Letras. Sacerdote, adotou um estilo de vida simples, buscando o crescimento espiritual. Seguiu em grande parte os ensinos de Wycliffe. Queimado na estaca em 1.415, condenado pelo Concílio de Constança como herege.
“Como teólogo, Hus ajudou a restaurar uma visão bíbli­ca da igreja, uma visão que se concentrava nos ensinos de Cristo e no Seu exemplo de pureza” (Kubricht)

4. A expansão geográfica no período - alcançando a Europa
4.1. A Igreja já tinha se expandido pelo sul da Europa e chegado ao centro do continente em séculos anteriores. Os francos, assim como os anglos e saxões, contavam com igrejas estabelecidas ou em implantação. O desafio era alcançar o norte, dominado pelos vikings.
4.2. Durante séculos, os vikings tinham apreciado a arte da guerra, se dedicando à pirataria e aos saques às cidades do continente europeu e mesmo em outras partes do mundo. Provocaram, inclusive, perdas ao movimento missionário, destruindo e saqueando centros de envio e preparo missionário, por exemplo, na Inglaterra.
4.3. É a partir do século X que a igreja começa a se estabe­lecer na Escandinávia, apesar dos esforços anteriores de Anskar. Em 948 fala-se pela primeira vez de bispos na Dinamar­ca sob o governo de Harald Blatand. Na Noruega é principalmente o rei Olaf Tryggvesson que leva o país ao Cristianismo. Tryggvesson faleceu no ano 1.000, mas sua obra continuou através de Olaf Haraldsson. Na Suécia, o processo foi mais lento, sendo o primeiro rei cristão Olof Skötkonung no começo do século XI. A Igreja somente se estabeleceu a partir do reinado de Sverker em meados do século XII. A Finlândia, cujo povo pertencia a uma raça distinta dos escandinavos, recebeu o Cristianismo em 1.155 quando o rei Erik IX, da Suécia, conduziu uma cruzada ao país vizinho subju­gando-o.
4.4. No final do período, o “Evangelho” havia alcançado os rincões mais extremos da Europa, conseguindo vencer o paganismo existente e estabelecer a Igreja. Mas é justamente nestas terras recentemente “ganhas” que a Reforma teve mais efeito quando veio alguns anos mais tarde.


ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS
“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz!
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Mestre, fazei que eu procure mais consolar,
que ser consolado;
mais compreender, que ser compreendido;
Mais amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe;
É perdoando que se é perdoado;
É morrendo que se vive para a vida eterna!

Reforma e Missões


CAPITULO V

Introdução
Após mais de 1.000 anos na sombra dos interesses políticos e econômicos, a Igreja é sacudida por um movimento de peso que cria condições de mudanças profundas e duradouras. Tra­ta-se da reforma iniciada por Lutero no começo do século XVI. Tentativas anteriores tinham mobilizado partes da Igreja por períodos mais ou menos longos, porém, é a partir da reforma protestante que uma parte significativa da Igreja busca uma volta aos conceitos neotestamentários de igreja e de vida cristã. Oficialmente a Igreja de Roma não aceitou as mudanças pro­postas pelos reformadores e os excomungou. O movimento, no entanto, era forte e “conquistou” regiões importantes dando origem a diversas ramificações protestantes.

Antecedentes e razões para a Reforma
1.1. Antecedentes
A pré-reforma de Wycliffe e Hus deixou marcas na sociedade em que viviam, causando reações por parte do povo contra a relutância da Igreja em aceitar as reformas propostas por eles.
Mas o tempo era de mudanças. Destacam-se:
- Mudanças geográficas
- Mudanças políticas
- Mudanças econômicas
- Mudanças sociais
- Mudanças intelectuais
- Mudanças religiosas
1.2. Razões para a Reforma
- As mudanças acima citadas criam a expectativa de reformas também na estrutura eclesiástica vigente. O “sagrado” é passivo de questionamento e de rein­terpretações.
- A decadência moral da Igreja leva a um desconten­tamento geral por parte do povo e até de uma parte do clero.
- A abertura da época para o livre pensar com base no humanismo nascente e nas próprias Escrituras.
- A atuação do Espírito Santo de Deus levantando homens com coragem para irem contra o poder político e religioso (dogmático) da Igreja de Roma.
Certamente existem outras causas para a Reforma sendo, entretanto, uma das principais, a decadência da Igreja.



2. A decadência da Igreja
Pode parecer propaganda protestante falar sobre a deca­dência da Igreja Romana. Não obstante, era uma realidade no tempo vivido por Lutero e os demais reformadores. O próprio Lutero era da Igreja e queria reformá-la de dentro para fora. Destacam-se algumas áreas mais críticas de declínio dos pa­drões bíblicos:
2.1. A opulência da Igreja - enquanto muitos viviam na miséria.
2.2. A taxação escandalosa - aborrecendo a classe média.
2.3. Os escândalos papais - dissensões e imoralidade.
2.4. O declínio das ordens monásticas - corrupção e imora­lidade.
2.5. O cruel tratamento dos “hereges” - por exemplo: Hus.
2.6. A relutância em aceitar as mudanças na sociedade e, consequentemente, também dentro da Igreja.
2.7. O jugo com o poder político e econômico.

3. Os reformadores
Não podemos neste contexto analisar todos os aspectos da Reforma nem fazer justiça ao papel desempenhado pelos re­formadores, traçando biografias completas. Interessam-nos, principalmente, dois aspectos: a visão missionária dos refor­madores e os resultados da Reforma para missões.
No entanto, alguns dados biográficos nos ajudam a colocá-­los na história.


3.1. Martinho Lutero (1483 a 1546)
Filho de camponeses alemães. O pai teve êxito na in­dústria de mineração e pôde dar bons estudos ao filho. Estudou na Universidade de Erfurt, colando grau de mestre em 1505. Iniciou estudos de Direito, mas teve uma forte experiência emocional e decidiu ser monge, ingressando para a ordem agostiniana. Foi ordenado ao sacerdócio em 1507. Bacharel em Teologia em 1509 e Doutor em Teologia em 1512 em Wittemberg.
Em Roma, durante dois anos de estada ali (1510 e 1511) descobriu a corrupção e a luxúria da Igreja, vendo a necessidade de mudanças.
Em 1517 afixou as 95 Teses, iniciando uma série de debates. Foi excomungado pelo papa Leão X em 1520. Lutero criticou fortemente o sistema das indulgências e a corrupção dentro da Igreja. Traduziu a Bíblia para o alemão em 1534, tendo já traduzido o Novo Testa­mento em 1522.
Contribuiu na reforma da liturgia, no estabelecimento de doutrinas básicas, no uso do idioma nacional nas missas e na moralização dos sacerdotes. A justificação pela fé e não por obras foi, sem dúvida, sua principal tese. Deixou, com sua morte, a liderança para Filipe Melanchton. Devido a divergências com outros líderes reformadores e seu envolvimento pessoal, defendendo atitudes erradas de amigos, Lutero perdeu apoio de muitos e outras ramificações surgiram.


3.2. João Calvino (1509 a 1564)
Francês, criado num ambiente de cidade na França, tornou-se um dos líderes da Reforma protestante. Es­tudou Direito e Ciências Humanas em Paris. Em 1533 experimentou, através do estudo da Bíblia, uma instan­tânea conversão. Aceitou o ensino de Lutero sobre a justificação pela fé, mas da forma exposta por Melanch­ton, separando a justificação diante de Deus no céu, do novo nascimento na terra do homem convertido. De­senvolveu o pensamento que Deus é um regente abso­luto, tendo o poder total como característica principal. Costuma-se simplificar o teologia de Calvino, usando o anagrama TELIP:
T - Totalidade da depravação humana
E - Eleição incondicional
L - Limitação da redenção aos eleitos
1 - Irresistibilidade da graça
P - Perseverança dos santos.


3.3. Huldreich Zwinglio (1484 a 1531)
Suíço, estudou em Viena e Berna. Foi ordenado sacer­dote católico em 1506. Cerca de 1516, experimentou uma abertura para a fé evangélica semelhante a de Lutero. Voltou-se para o estudo das Escrituras atacan­do o sistema medieval da Igreja em 1518. Pregou de forma exegética na catedral de Zurique, onde era pas­tor, marcando o início de suas reformas.

4. A visão missionária dos reformadores


De uma forma geral tem-se criticado os reformadores por não possuírem uma visão missionária maior. Parece lhes faltar o interesse de levar as descobertas da fé para outras partes do mundo conhecido. Numa comparação com movimentos pos­teriores dentro do próprio protestantismo, pode-se dizer que tal crítica é fundada. Entretanto, se analisarmos o contexto em que os reformadores viveram e suas preocupações prioritárias, podemos entender seus poucos projetos missionários.
Também seria incorreto dizer que não houve tentativas. Calvino e Coligny, líder dos huguenotes (nome dado aos pro­testantes na França) se esforçaram para estabelecer colônias em ambas as Américas, com a intenção de ganhar os pagãos.
Algumas razões para o “pouco interesse” missionário são:


4.1. A compreensão dos limites da Igreja - cada paróquia em seu território.
4.2. Batalhas militares e políticas na Europa.
4.3. A escolástica protestante com declínio espiritual.
4.4. A rejeição do monasticismo ficando sem estrutura missionária.
4.5. A preocupação com a reforma em si.

5. Os Anabatistas
Surgiram primeiramente na Suíça onde havia maior liber­dade. A influência de Zwinglio no uso das Escrituras encorajou o movimento.
Conrad Grebel (1498 a 1526) é tido como o fundador. Apoiado em Zwinglio, que via no batismo infantil algo contrá­rio às Escrituras, Grebel e outros foram batizados por imersão. Em 1525, Zwinglio rompeu com o movimento anabatista, tornando-se forte opositor, inclusive, reconhecendo novamen­te o batismo infantil. Uma forte perseguição levantou-se con­tra os anabatistas na Suíça. Os seus seguidores foram mortos por afogamento e em 1531 o movimento praticamente não existia mais no país devido às mortes e à emigração para outros países.
Um dos primeiros anabatistas alemães foi Balthasar Hub­maier (1481 a 1528). Doutor em Teologia pela Universidade de Ingolstadt, era adversário de Lutero. Em 1525 ele e mais 300 seguidores foram batizados por afusão. Foi queimado numa estaca em 1528 por ordem do Imperador e sua esposa, afogada no Danúbio pelas autoridades católicas romanas. En­sinou a separação entre Igreja e Estado, a autoridade da Bíblia e o batismo dos crentes.
Na Holanda, os anabatistas, mas conhecidos como “os ir­mãos”, passaram a ser conhecidos como menonitas, conseguin­do liberdade religiosa em 1676.

6. Resultados da Reforma para missões
Para o cumprimento da tarefa missionária da Igreja, a Re­forma contribuiu positivamente em muitos aspectos. Além da Reforma em si, com uma tentativa de voltar aos conceitos bíblicos de igreja e de vida cristã, podemos citar alguns resul­tados:
6.1. Uma nova compreensão do Evangelho e da justificação.
6.2. Uma nova estrutura mais adequada e contextualizada da Igreja.
6.3. Liturgia na língua do povo e tradução da Bíblia.
6.4. Lugar para o ministério do leigo, facilitando a expansão.
6.5. O surgimento de ramificações diferentes, dando liber­dade de expressão e possibilitando ênfases diferentes de ministério.

6.6. Separação da Igreja do Estado, deixando a identificação do Evangelho com o poderio político/militar/econômi­co. (O processo foi rápido em alguns casos; em outros ainda está em andamento).



O período dos descobrimentos


CAPÍTULO VI
O PERIODO DOS DESCOBRIMENTOS E AS
MISSÕES CATÓLICAS ROMANAS

Introdução
O período dos descobrimentos cobre principalmente os anos 1500 a 1600 tendo, no entanto, continuidade direta nas missões católicas romanas nos dois séculos seguintes (1600 a 1800).
Caracteriza este período a ampliação do mundo conhecido e, como conseqüência, também o desafio “missionário” da Igreja de Roma. Achar novos caminhos para o comércio, des­cobrir novas terras e colonizá-las, cristianizar os povos pagãos, são metas que vão surgindo. Alguns feitos acontecem “por acaso”, outros são planejados. A Europa fica, de certa forma, pequena para os movimentos religiosos que aparecem e a batalha pelo norte europeu não tem o êxito desejado pelos líderes católicos.



1. Os descobrimentos
As descobertas geográficas ocorridas no fim do século XV e no começo do século XVI são, principalmente, feitas por espanhóis, portugueses e italianos. Mais tarde, ingleses, fran­ceses, holandeses e dinamarqueses (e outros) irão seguir os passos dos sul-europeus na conquista de novas terras e novas possibilidades de comércio e extração de matéria-prima.
1.1. O descobrimento das Américas
- Cristóvão Colombo chega às Bahamas em 1492, crendo ter encontrado o caminho à Índia.
- Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil em 1500.
- Hernan Cortez consegue chegar ao México em 1519, saindo da já colonizada Cuba.
- Francisco Pizzarro desceu do atual Panamá até o litoral peruano em 1531, conquistando o território Inca.
Em todas estas expedições, os comandantes militares e os exploradores levavam consigo representantes da Igreja a fim de cristianizar os povos que iam sendo descobertos e subjuga­dos.
1.2. O caminho para a Índia
Chegar à Índia sem a necessidade de passar por área muçulmana era um antigo sonho. Em 1497, Vasco da Gama, seguindo o traçado feito por Bartolomeu Dias, dobra o Cabo da Boa Esperança, atravessa o Oceano Índico e atinge a costa ocidental da verdadeira Índia.
1.3. O Oriente - um desafio
Não se tratava de descobrir o Extremo Oriente com suas culturas milenares, mais antigas que os próprios “descobridores”, e com os quais já havia algum tipo de comércio e contato. Não obstante, era um enorme de­safio estabelecer a Igreja nesta região.
2. Personagens de destaque
Entre muitos que se destacaram por suas conquistas ou por sua devoção e dedicação ao ministério missionário, destaca­mos quatro:
2.1. Bartolomeu de las Casas (1474 a 1566)
Monge dominicano nascido em Sevilha na Espanha, chegou ao Novo Mundo em 1502. Criticou fortemente os maus tratos aos índios pelos colonizadores espanhóis e se opôs à escravatura.
2.2. Matteo Ricci (1552 a 1610)
Italiano que trabalhou na China adaptando-se comple­tamente aos costumes e usos chineses, usando na comu­nicação do evangelho termos confucionistas. Permitiu que os convertidos participassem de ritos de adoração a ancestrais e outros ritos do estado, considerando que tinham caráter social e civil.
2.3. Francisco Xavier (1506 a 1552)
Espanhol (basco) jesuíta enviado por Inácio de Loyola à Índia em 1542. Foi um dos mais famosos missionários católicos romanos e um dos maiores missionários de toda a história da Igreja. Trabalhou em várias partes do Extremo Oriente.
2.4. Robert de Nobile (1577 a 1656)
Italiano, chegou à Índia em 1605. Pioneiro de extraor­dinária habilidade que elaborou novos métodos de aproximação aos indianos. Trabalhou principalmente no sul da Índia com brâmanes. Achava que precisava ganhá-los p ara converter a Índia. Tornou-se como um deles usando suas vestes e lingua­jar.

3. Os Jesuítas
A ordem dos Jesuítas tem sua origem num pequeno grupo formado por Inácio de Loyola (1491 a 1556) em Paris no ano de 1534. Tratava-se do início de uma milícia de Cristo com o objetivo de serem missionários em Jerusalém, alcançando os maometanos.
Em 1540 o papa Paulo III confirma a existência da ordem. Os jesuítas se espalharam pelo mundo agindo através da pre­gação, do confessionário, de suas ótimas escolas para os nobres e ricos e de missões estrangeiras.

4. O mundo católico no fim do período
Além dos países tradicionalmente católicos no sul da Euro­pa e partes do continente central, a fé católica tinha se espa­lhado pela América Central e pela América do Sul convertendo, na maioria das vezes, os indígenas à força (ou enganosamente). No oriente, frentes missionárias haviam sido abertas e em alguns lugares o número de adeptos era signifi­cante. Mas foi, sem dúvida, entre os latinos e seus descendentes que a Igreja de Roma criou raízes profundas e ainda existentes.



Os despertamentos


CAPÍTULO VII

Introdução
O período que chamamos de “era dos despertamentos” compreende basicamente os anos de 1600 a 1800, e trata, em primeiro lugar, da Igreja ocidental influenciada pela Reforma protestante. Seguindo o mesmo espírito de reformas, os dife­rentes despertamentos surgem ou a partir de indivíduos, ou a partir de grupos que se unem para devoção a Deus. A necessi­dade de continuar as mudanças no culto religioso e no cumpri­mento da missão da Igreja, faz com que se busque novas alternativas e novas ênfases na vida cristã. Uma dependência maior de Deus, quando se deixa grande parte da estrutura tradicional de lado, resulta numa atuação mais direta do Espí­rito de Deus e, consequentemente, em despertamento e aviva­mento.

1. 0 Puritanismo
1.1. O nome do movimento de reforma vem do desejo de “purificar” a Igreja da Inglaterra, por parte daqueles que achavam que a reforma ainda não ti si o completada. Mais tarde, os puritanos também buscaram a sua pró­pria “purificação” e a da sociedade.
1.2. É na teologia reformada do continente europeu que os puritanos buscam suas raízes teológicas, com elemen­tos vindos desde a época de Wycliffe.
1.3. Baseia-se em quatro convicções principais:
- A salvação pessoal vem inteiramente de Deus.
- A Bíblia é o guia indispensável para a vida.
- A Igreja deve refletir o ensino específico das Escri­turas.
- A sociedade é um só todo unificado.
1.4. Os puritanos deram ao leigo uma participação maior na igreja, ao mesmo tempo em que buscavam para cada igreja local um pastor bem preparado para expor as Escritu­ras.
1.5. O movimento que surgiu nos primórdios do século XVII, se envolveu com muitas controvérsias na Ingla­terra devido a sua visão da sociedade e dividiu-se em diferentes ramificações.
1.6. Entre muitos puritanos famosos podemos citar John Bunyan, autor do livro “O Peregrino”.
1.7. Em termos missionários, apesar de alguma tentativa do próprio movimento se expandir para outros lugares, é na influência puritana, deixada para as igrejas que se organizam como fruto do movimento, que vemos os maiores resultados positivos.

2. O Pietismo
2.1. O movimento pietista teve sua origem no seio da igreja luterana alemã no fim do século XVII.
2.2. Definia a fé verdadeira como a crença nas doutrinas corretas.
2.3. Algumas características do pietismo são:
- Busca de um relacionamento íntimo com Deus.
- Ênfase numa ética pessoal - beirando ao legalismo.
- Uso maior das Escrituras como única base para a fé.
- Maior participação do leigo - o sacerdócio universal.
- Uma crescente visão missionária.
2.4. O pietismo é um movimento complexo com muitas facetas, mas, em suma, quer reformar a tradição protes­tante, já um tanto acomodada e longe dos primeiros ideais dos reformadores.
2.5. Alguns dos homens importantes do pietismo são:
- Phíllip Jacob Spener (1631 a 1705) - o pai do pietis­mo.
- August Herman Francke (1663 a 1727).
2.6. A influência do pietismo em missões foi tremendamen­te importante. Iniciativas missionárias que se organiza­ram mais tarde em igrejas e agências enviadoras de missionários, buscaram, em grande parte, sua inspira­ção no pietismo. Entre elas a Missão de Halle, os Mo­rávios e a Igreja da Aliança da Missão Sueca. Como veremos a seguir, algumas destas organizações missio­nárias foram resultado direto do movimento pietista.

3. A Missão de HALLE
3.1. Uma missão dinamarquesa iniciada em 1705.
3.2. Surgiu de uma cooperação entre o governo da Dina­marca e o movimento pietista com centro na cidade de Halle, obra de Francke.
3.3. Foi a primeira missão européia a enviar missionários para outros continentes. O inicio se deu em Tranque-bar, na Índia, com a ida de Bartolomãus Ziegenbalg em 1705.
3.4. A estratégia utilizada por Ziegenbalg foi a ênfase no culto, na pregação, na catequese, na educação, na tra­dução da Bíblia e na produção de literatura vernácula. Ele estudou a filosofia e a religião hindu para melhor conhecer o povo.
3.5. Outro missionário famoso da missão de Halle foi Chris­tian Schwartz.



4. Os Morávios
4.1. Os morávios são os remanescentes da obra de João Hus. Os poucos que ficaram a as perseguições, encontra­ram asilo junto ao conde de Zinzendorf, na Saxônia, onde fundaram, em1722, uma aldeia denominada Herrnhut (o vigia do Senhor).
4.2. O conde Nicolau Ludwig von Zinzendorf (1700 a 1760) tinha, desde cedo, uma forte devoção a Cristo e havia estudado no centro do pietismo em Halle.
4.3. Liderados por Zinzendorf, os morávios chegaram aos cinco continentes do mundo com seus missionários. Apesar da pobreza e poucos seguidores, os primeiros foram enviados já em 1732. Após 100 anos de atividade missionária, eles contavam com 41 estações, 40 mil batizados nos campos missionários e 208 missionários. Em 1882 (50 anos depois) já tinham aumentado para 700 estações, 83 mil batizados, 335 missionários e 1500 ajudantes nacionais.
4.4. A proporção de missionários por membros do movi­mento chegou a 1 por 25, dificilmente igualado por outro grupo na história de missões.
4.5. A estratégia empregada pelos morávios era:
1. Iniciar o trabalho de missões entre povos pouco evangelizados e esquecidos.
2. O missionário deveria ser auto-suficiente economi­camente através de comércio, indústria caseira,etc.
3. Aceitar a cultura do povo, não colocando normas européias de costumes e valores.
4. O missionário era o servo do Espírito Santo enviado para evangelizar e não para doutrinar.
5. Se o povo não aceitasse o evangelho, o missionário deveria procurar outro campo. O missionário era o servo do Espírito Santo enviado para evangelizar e não para doutrinar.

5. Os irmãos Wesley
A família Wesley, na Inglaterra, era já por tradição devota. São, principalmente, dois irmãos Wesley que se destacam na história de igreja: John e Charles.
John Wesley (1703 a 1791), a principal figura do metodismo, tinha, já de berço, influências do puritanismo e do anglicanis­mo. O movimento que surge busca, não obstante, também aspectos do herrnhutismo, do industrialismo e do colonialismo.
John, juntamente com seu irmão Charles, elabora um mé­todo ritualista e ascético para a vida religiosa dos membros. O uso deste método levou ao apelido de metodismo.
Foi entre os operários ingleses que o movimento conseguiu maior êxito e, enquanto o n Wesley vivia, tratava-se de um avivamento dentro da Igreja Inglesa. Após sua morte, organi­zou-se numa igreja própria. O metodismo alcançou também a América do Norte estabelecendo sociedades metodistas, par­ticipando na divulgação do Evangelho por todo o mundo, com o envio de missionários, mais tarde na história.

6. Avivamentos na América
O século XVIII trouxe à América as correntes pietistas já existentes na Europa. Estas correntes causaram os grandes avivamentos em diferentes grupos religiosos e colônias de imigrantes.
O Grande Avivamento, nome dado ao conjunto de desper­tamentos na América, ocorrido na segunda metade do século XVIII, significou uma forte ênfase na experiência pessoal de conversão, incluindo aspectos de emocionalismo e êxtase es­piritual.
Não vamos analisar o Grande Avivamento em detalhes, apenas citar alguns dos nomes importantes por terem influen­ciado fortemente os rumos da obra missionária.
6.1. George Whitefield (1714 a 1770)
Inglês, o evangelista mais conhecido do século XVIII e um dos maiores pregadores itinerantes da história da igreja protestante. Participou ativamente do Grande Avivamento com suas pregações em diversos pontos da “Nova Inglaterra”. Trabalhou ligado aos irmãos Wesley. Calcula-se que tenha p regado durante seus trinta e três anos de ministério, 15.000 vezes!
6.2. John Eliot (1604 a 1690)
Inglês, chegou à América em 1631. Foi um dos primei­ros e, possivelmente, o maior dos missionários para os índios americanos. Pertencia à Missão Indígena dos Puritanos da Nova Inglaterra e trabalhou durante toda sua vida tentando alcançar os indígenas. A estratégia utilizada pela missão de Eliot foi:
- Evangelizar, principalmente através da pregação.
- Reunir as pessoas convertidas em igrejas locais.
- Fundar cidades cristãs, segregação.
Eliot e a missão aos índios fazem parte do movimento de despertamento na América devido, tanto ao trabalho realiza­do, como à inspiração missionária que foi passada para as gerações posteriores.

7. Influências dos despertamentos em missões


Destacamos algumas:
7.1. O surgimento de bases missionárias, tanto na Inglaterra e na Europa Continental, assim como na América do Norte. Igrejas, que mesmo divididas em denominações, são ativas e crescentes.
7.2. Ênfase na conversão pessoal e vida devocional intensa.
7.3. A abertura para a obra do Espírito Santo.
7.4. Os exemplos de pioneiros que influenciaram outros mais tarde.
7.5. Participação dos leigos, investimento na educação e fervor na evangelização são outros aspectos importan­tes.

Extraído do livro: História de Missões
Um Guia de estudo da história missionária
Autor: Bertil Ekström
Gentilmente cedido pelo Pr.Silon O.do Nascimento




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